Modernismo em xeque de Bia Monteiro

Bia Monteiro é uma artista plástica brasileira que mora em Nova York e não faz parte do circuito, para dar um exemplo recente, da SP-Arte e similares. Longe do Brasil, a carioca leva para o seu trabalho de fotografia um questionamento muito interessante. Afinal, qual é o legado do movimento modernista, principalmente na arquitetura, para o povo brasileiro, hoje?

Fotografia de Bia Monteiro propõe uma discussão sobre o legado do movimento modernista brasileiro

Em uma série de fotografias impressas em concreto e outras interferências, Bia apresenta seu olhar de fora sobre o tema. “Minha mudança pra Nova York aconteceu num momento em que o Brasil deixava para trás a ilusão de que o país estava melhorando, que havia futuro. A dor de ver, à distância, o país retrocedendo me proporcionou essa vivência egoísta”, diz. Ao apresentar seu trabalho na ONU em fevereiro, chamou a atenção da Kitai Gallery, de Tóquio, que a convidou para um individual a partir do dia 20 de maio.

Saíra, fotografia impressa sobre concreto, de Bia Monteiro, que será apresentada em Tóquio a partir de 20 de maio

A exposição Linhas Modernas é a resposta de Bia a esse processo. O que é Brasília? O que é o concreto? O blog Cinquenta com Pimenta conversou com a artista plástica antes da abertura de sua exposição em Tóquio. Acompanhe.

Bia, para entender um pouco da sua carreira, queria que você contasse um pouco sobre como chegou aqui, onde estudou, por que decidiu ser artista plástica.

Sou Bia Monteiro, carioca, 40 anos. Me formei em cinema em 1998 na Emerson College, em Boston. Fui assistente de câmera para curtas e documentários até 2001, no Rio. Sempre fui conectada com image making. No início dos anos 2000 me juntei com uma prima/sócia que vivia em Barcelona (Kitty Saladini) e montamos a Mínima Galeria e Bistrô.

Era mais que uma galeria, era um ponto de encontro, onde aconteciam exposições de artistas emergentes e vários happenings sociais. Infelizmente, na época, fomos assaltadas e tivemos que mudar para um lugar mais seguro, o que acabou mudando o perfil do projeto totalmente. Me tornei mãe em 2005 e depois em 2007. Me dediquei aos pequenos nesse tempo e assim mudei minha rotina e iniciei cursos com a Iole de Freitas no Parque Lage. Esse foi meu turning point para as artes plásticas.

Vejo que vai expor em Tóquio. Como aconteceu esse convite?

Participei de uma mostra coletiva na sede da ONU em fevereiro e o curador achou que o trabalho seria interessante para Kitai Gallery, em Tóquio. Apresentei meu trabalho ao galerista e ele me convidou para expor.

As interferências de Bia Monteiro em suas fotografias convocam o espectador a discutir forma e função

Me conte um pouco do StudioDuo. O que é?

StudioDuo é um coletivo que divido com o fotógrafo Matthew Papa, em Nova York. Fazemos exposições com curadores diferentes em espaços alternativos. Vamos inaugurar uma exposição em 11 de maio, em Long Island, intitulada The artist’s body, com curadoria de Justine Kurland. A mostra é parte de uma série de exposições cuja temática envolve a relação com o corpo. A próxima será sobre a relação entre o corpo e a paisagem. Também faremos duas publicações anuais com o resultado dessa exposições e outros artistas agregados.

Como você monta suas fotografias, qual é o processo?

Eu sempre começo com uma pesquisa e depois vou em busca das imagens. Raramente eu trabalho com a fotografia e o acaso. Acho que isso se deve à minha bagagem do cinema, onde o storyboard é fundamental. Normalmente inicio com rascunhos em cadernos, depois reproduzo imagens, penduro-as no estúdio por um tempo e vou trabalhando o processo. Esse tempo é fundamental para mim e para o amadurecimento do projeto. Gosto muito de utilizar materiais alternativos e não somente o papel fotográfico. Nessa exposição do Japão, por exemplo, mostrarei fotografias impressas em concreto.

Jandaia, fotografia impressa em concreto, de Bia Monteiro

Inspirações, quais são? Quais artistas plásticos brasileiros e estrangeiros você admira?

Variadas. Como moro em Nova York, visito galerias e instituições de arte semanalmente. Recentemente descobri o trabalho do Tonico Lemos Auad, que me interessou muito. Para a série Linhas Modernas, que apresentarei em Tóquio, pesquisei bastante o trabalho da Lygia Pape (que está com uma retrospectiva linda no Met Breuer agora) e Burle Marx.

A natureza exuberante nas fotografias de Bia Monteiro

Por que está morando em Nova York? Qual é a galeria que te representa? No Brasil, como vende seu trabalho?

Vim fazer um mestrado de fotografia no ICP (International Center of Photography) em 2014 e o plano de ficar apenas dois anos acabou se estendendo. Ainda estou aqui e tenho planos de continuar. Vivo com meu marido e dois filhos, de 9 e 11 anos. Meu marido é mestrando em Critical Theory of Art na School of Visual Arts. Ainda não tenho nenhuma galeria no Brasil. A Kitai Gallery, no Japão, me representará por um ano. O meu trabalho é vendido em Nova York através das exposições que participo e de alguns arquitetos.

Observo no seu trabalho uma vontade de contraponto entre Tropicália e Brutalismo, Bauhaus e muita década de 60. É isso? Por que escolheu essa vertente?

Minha mudança pra Nova York aconteceu num momento em que o Brasil deixava para trás a “ilusão” temporária de que o país estava melhorando e de que teria um futuro promissor para as diferentes classes. Esse momento foi muito importante e crucial para mim não só como cidadã brasileira, mas como artista. A dor de ver, à distância, o país retrocedendo me proporcionou uma vivência tanto egoísta quanto dotada desse “olhar de fora”. A exposição Linhas Modernas partiu justamente do questionamento do que foi e é Brasília? O que é o concreto? O que o Modernismo significou para a nação brasileira? Aquele momento da minha mudança era como se estivéssemos revivendo esse momento de euforia que marcou a construção de Brasília.

Oca, fotografia de Bia Monteiro

Você foi dona de uma galeria, a Mínima. Como foi essa experiência de negociar arte?

Foi super interessante em termos da troca com o artista e o público, mas infelizmente eu não tenho o dom da venda. Tenho um espaço no centro do Rio que em breve será aberto ao público e dedicado à exposições de artistas em residência. Ele não terá o cunho comercial de galeria. A seleção será feita através de open calls. Mas isso é uma outra conversa.

A artista plástica carioca Bia Monteiro mora em Nova York desde 2014

SERVIÇO

Bia Monteiro: Linhas Modernas

De 20 de maio a 3 de junho de 2017

Gallery Kitai

3-1 Hayabusacho, Chiyoda-ku, Tóquio, Japão

www.kitaikikaku.co.jp/top

 


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