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Nuas, maduras e visíveis: as mulheres de Silvana Garzaro

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Luzes e sombras para mostrar a beleza da mulher madura e poderosa

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Sentir-se segura em qualquer idade, consciente de que a mulher pode ser feliz com seu corpo

Muito triste depois do término de um relacionamento, Silvana Garzaro descobriu, aos 40 anos, que a vida não brilhava tanto como antes. A solidão a incomodava. O trabalho como fotógrafa de coluna de jornal não a fazia exatamente uma pessoa recolhida, mas ela se sentia apagada.

Conversando com uma mulher durante um evento, sobre a dificuldade de construir um novo relacionamento, foi abordada por uma senhora de 70 anos: “Minha filha, quantos anos você tem? Eu disse: 41, e ela: Então se prepare para ficar invisível, porque a mulher ao passar dos 40, 50, vai ficando assim, principalmente no Brasil”, lembra.

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Tornar-se invisível depois dos 40 anos é uma armadilha que a sociedade proporciona à mulher

A frase teve efeito de paulada na nuca. “Quando fiz 42 anos, me envolvi com um garoto de 29, ele não me assumia, e descobri que ele tinha uma namorada de 21. Fiquei deprimida”, diz. Um dia, insone, Silvana levantou e viu uma linda luz em sua sala e teve um insight. Colocou a câmera no tripé, tirou a roupa e começou a se fotografar. “Foi difícil, pois eu não tenho disparador de câmera, tinha que colocar no timer e correr para fazer a pose que eu queria”, diz. Ali, naquele momento, Silvana transformou a sua vida e enxergou uma generosa possibilidade de abordar a mulher de meia idade, fotografando-as nuas, para mostrar sua beleza, seu poder, suas transformações.

 

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A experiência a fez pensar sobre o foco que a sociedade dá à essa mulher. “Fala-se muito do empoderamento feminino, do aborto, do estupro, da mulher negra, mas não vejo discussões sobre a mulher da meia idade. A mulher da terceira idade tem até mais destaque”, diz. Temas como a menopausa, a mudança de corpo, os cabelos brancos e a invisibilidade social são pesados. “Eu quero jogar luz nisso”, diz. Sempre em preto e branco.

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Uma mulher confiante é a mulher mais bela do mundo

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Os ensaios de Silvana Garzaro serão reunidos em um livro e ela ainda busca personagens para finalizá-lo

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A experiência tem sido fantástica. “Teve uma mulher linda que me disse, Silvana, estou posando para você hoje porque este é o melhor momento da minha vida, hoje, aos 68 anos eu me sinto livre e plena, e foi muito lindo e eu até chorei”, lembra a profissional.

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No dia em que se fotografou, Silvana foi dormir e leu um poema de Carlos Drummond de Andrade (abaixo). Completou-se a inspiração ali.

Campo de Flores
Carlos Drummond de Andrade

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

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Como Silvana Garzaro vê a fotografia: “Olha, acho que o segredo é tentar a pose certa para cada mulher, porque eu costumo dizer que a fotografia não é a realidade nunca, ou ela te melhora, ou te piora, então acho que é como dirigir e deixar a mulher à vontade, esquecer que é um nu, e fazer um ensaio mesmo, nunca uma única cena, quanto mais se fotografa a pessoa, melhor ela vai ficando, acho que é isso”.

 

Para conhecer o trabalho de Silvana Garzaro, visite o site da fotógrafa aqui.

Ela está em busca de mais mulheres para compor o livro que irá lançar em breve.

Vamos?

 


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