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Un certain regard – o olhar aguçado de Denise Adams

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Denise Adams, na varanda de sua casa, no Rio

 

Conheci Denise Adams numa redação de revista, em que dividíamos coberturas no mercado de artes plásticas. Dali surgiu uma admiração mútua. Além da fotografia jornalística, ela criava sua própria pesquisa particular, que já indicava que ela migraria, em breve, para o universo das artes plásticas. Tenho muita simpatia por quem cria. Foi para falar sobre o universo do olhar que eu pedi para Denise responder algumas perguntas sobre a fotografia, a arte, a junção das duas, o jornalismo e o mundo moderno, onde a comunicação se debate para encontrar um novo espaço e uma nova função.

“Nesse momento, ando muito afetada pelo momento político no nosso país e em perceber como as pessoas estão lidando com isso. Talvez isso me traga uma certa urgência para pensar no sentido da minha própria produção enquanto artista”, diz Denise. Acompanhe a seleção de fotos que ela me enviou e a história da carreira criativa que ela construiu.

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A fotografia que embaralha o olhar e questiona a vida: somos grandes ou pequenos? Denise Adams nos oferece esse desafio com seu olhar especial, sua arte particular

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Da série Miniaturas

Como você se transformou em fotógrafa? Tenho interesse em saber qual a profissão real das pessoas. Hoje todo mundo é múltiplo, tem muitas atividades ao mesmo tempo. 

Denise Adams: Fui me tornando fotógrafa aos poucos, quando ainda estava terminando o colégio e entrando na faculdade de Jornalismo. Durante esse percurso, fazia alguns trabalhos remunerados e diversos ensaios com amigos. Adorava ficar no meu micro laboratório preto e branco, ampliando fotos.

Trabalhei no Laboratório Imágicas, um lugar de resistência nas mãos de Rosângela Andrade, depois trabalhei em redações de jornais e revistas como Estadão, Folha e revista Época.

Interessante que vivi um momento de transformação radical na fotografia. Do começo da minha formação até hoje, o suporte é completamente outro, isso faz com que a própria relação se transforme, exigindo que tenhamos uma postura mais consciente e crítica no produzir imagens nos dias de hoje.

Você fez curso de fotografia?

Denise Adams: Meu primeiro curso foi no Sesc Pompéia ainda no final dos anos 80, depois minha formação se deu muito a partir de cursos breves e participações em grupos de estudo e programas de editais, que foram fundamentais. Me formei em Cinema na FAAP e hoje faço mestrado em artes na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Quando eu te conheci, você trabalhava para uma revista e vendia peças em galeria. Como fez essa transição, ou melhor, como lidava com as linguagens?

Denise Adams: Sempre produzi trabalhos em fotografia que propunham pensar sobre questões que me interessavam no mundo. Participava de exposições e estava próxima de um lugar que acolhia e incluía a fotografia no universo da arte contemporânea. Na época não era fácil lidar com esses dois lugares, achava que eram universos muito distintos entre si. Hoje penso que minha proximidade com o jornalismo e tudo o que implica essa rotina, foi fundamental na minha maneira de enxergar o mundo e pensar a imagem.

 

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Natureza explode em cor e luz. Mesmo estática, a imagem vibra

 

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Uma pedra que vira uma escultura que vira uma foto. No Espelho da Maravilha, Bahia

 

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A névoa envolve a montanha ou o nosso olhar nos confunde?

 

Em redação, qual foi a experiência mais relevante? E nas artes plásticas?

Denise Adams: Fiz uma matéria com a jornalista Eliane Brum sobre as Parteiras da Floresta que foi muito impactante. Além da parceria afinada, o assunto era e ainda é relevante para pensarmos como ocorrem os nascimentos no país. Ir até o Amapá e atravessar a fronteira na Guiana Francesa para viver isso de perto foi incrível. Também a experiência da maternidade em si, que particularmente pra mim foi intensa naquela época.

Porém, além de poder viver experiências importantes com certa frequência nessa profissão, o que me chama a atenção é como o ofício te dá uma espécie de permissão para entrar na casa e na vida das pessoas, talvez seja isso que mais me chame a atenção.

Nas artes, eu acredito que sigo numa insistência pessoal no encontro de sentidos. É um trabalho diário e com muitos embates. Quando esse encontro se dá, é o maior acontecimento que eu poderia ter.

E como você está encaixada hoje nas redes sociais? Todo mundo, de repente, virou fotógrafo e parece difícil se destacar na multidão como fotógrafo profissional. 

Denise Adams: Vivemos um momento importante de transformações em várias esferas, na fotografia não é diferente. Precisamos estar tranquilos e também muito atentos, afinar nossas vocações para tentar entender e agir no mundo de uma forma mais efetiva e generosa. A arte é um importante caminho nesse sentido, pois está implicada com a liberdade.

As redes sociais escancaram esse momento contemporâneo e democratizam a comunicação, o que é relevante para pensarmos as novas mídias de informação. A fotografia está inserida nessa discussão e também está tendo que se reinventar.

Uso muito o instagram como laboratório de experiência visual, de alguma forma, essa rede me reconectou com um fazer cotidiano que eu havia perdido.

Quais são os assuntos que te interessam? Onde busca inspiração para viver?

Denise Adams: Vários assuntos me interessam, o desafio enquanto artista é como fazer uma edição disso e a partir da escolha de uma linguagem, mostrar isso para o mundo.

Nesse momento, ando muito afetada pelo momento político no nosso país e em perceber como as pessoas estão lidando com isso. Talvez isso me traga uma certa urgência para pensar no sentido da minha própria produção enquanto artista.

 

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Contar histórias através de texto e fotografia era a essência do jornalismo até o início dos anos 2000. Hoje, a informação pulverizada tomou conta de redes sociais

 

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“A reportagem nos permite entrar na casa, na vida das pessoas”, diz Denise. Com a jornalista Eliane Brum, fotografou as parteiras da floresta no Amapá, uma experiência inesquecível para a profissional

 

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Zélia Gattai brincando de fotografar – por que desejamos registrar tudo o que vivemos?

 

Você ainda vive da fotografia? Aliás, vive-se de fotografia hoje?

É preferencialmente através e com a fotografia que me coloco no mundo, por isso acho que sempre irei viver dela. Faço alguns trabalhos como fotógrafa, mas hoje estou fazendo mestrado e mais interessada em pensar a construção da imagem, como pensar a imagem hoje e seu sentido de estar no mundo.

Vive-se da fotografia, sim, mas em vários espaços onde havia essa função específica, ela necessita ser reinventada.

Quem admira? 

Denise Adams: Admiro muitos artistas, em momentos distintos da vida, mais uns do que outros. Diane Arbus, Cindy Sherman, Leonilson, Bispo do Rosário, Louise Bourgeois, William Kentridge, Tacita Dean, Francis Alÿs, Hélio Oiticica.

E para quem está começando a fotografar? Qual a sua dica?

Denise Adams: Estudar muita a história da arte e se aproximar principalmente das questões contemporâneas do que significa a produção de imagens nos dias de hoje.

Ter curiosidade com o mundo e ter a consciência que somos todos seres políticos.


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